Cartão corporativo do governo paga de camelô a diária no Copacabana Palace

BRASÍLIA – Os cartões corporativos do governo federal, que deverão virar tema de CPI no Congresso, vêm sendo usados para pagar de itens luxuosos a despesas inusitadas que ignoram as regras de limite e urgência. Um ministro e outras autoridades pagaram no cartão corporativo diárias no luxuoso Hotel Copacabana Palace, no Rio. Na outra ponta, servidores de segundo e terceiro escalões da Secretaria de Administração da Presidência pagaram, principalmente em Brasília, contas em floriculturas, cosméticos, drogarias, lojas de roupas, piscinas e cinefotos. Nessa lista há até uma compra numa barraca da Feira dos Importados, conhecida como Feira do Paraguai, local famoso por vender produtos piratas.

No dia 6 de dezembro passado, a servidora Ariene Meneses pagou com o cartão do governo uma compra de R$ 40. Pelo registro da Receita Federal, o estabelecimento Zheng Chunliang, que aparece no portal da Controladoria Geral da União, é descrito como uma loja de comércio de bijuterias e souvenires. Mas a pequena barraca do chinês Zheng é especializada na venda de óculos de sol. Modelos Dolce & Gabbana, Gucci e outras marcas famosas falsificadas são vendidos na barraquinha por cerca de R$ 40. Zheng vende também sutiãs Wondebra, igualmente piratas, ao preço de R$ 10.

O Portal da Transparência registra que o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, pagou despesas com o cartão no Copacabana Palace por três vezes em 2006. Além dele, integrantes do comando da Marinha fizeram o mesmo – R$ 2.998,50 no dia 5 de agosto. Há ainda uma conta em nome do Ministério da Fazenda, no valor de R$ 552, no mesmo hotel.

A primeira das três vezes em que o então ministro da Justiça hospedou-se ali foi em 6 de abril de 2006. O cartão corporativo pagou a despesa de R$ 2.255,04. Desse valor, segundo o ministério, Bastos recolheu R$ 138,60, referentes a gastos não cobertos pela administração pública. Em setembro daquele ano a despesa foi de R$ 1.507,89 e, em dezembro, o gasto no hotel foi de R$ 1.228,86. Segundo a assessoria, em todas as vezes que ficou hospedado no Copacabana Palace, Bastos tinha compromissos oficiais na cidade. Em abril participou de cerimônias em favelas e na Polícia Federal. Em setembro foi a um encontro da Interpol e, em dezembro, teve reunião com o futuro governador Sérgio Cabral.

Segundo a Casa Civil, a servidora Ariene Menezes recorreu à Feira dos Importados para adquirir mini-CDs, CDs e baterias para celulares.

Marinha não explica um gasto curioso: R$ 12,50 por um ursinho de pelúciaO Comando da Marinha é o órgão das Forças Armadas que mais gastou com cartão corporativo: R$ 915,7 mil em 2007. A Marinha usou o sistema de pagamento para comprar em joalherias presentes para visitantes estrangeiros e pagar diárias e despesas em sofisticados hotéis e restaurantes na Avenida Atlântica e na Lagoa, no Rio, e em Brasília e Recife. Na lista de compras estão ainda chocolates, vinhos finos e artigos de pelúcia. Um cartão foi usado para pagar a confecção de placas comemorativas.

Os gastos mais vultosos registrados no Portal da Transparência para o Comando da Marinha foram pagos com os cartões usados pelas capitãs de corveta Ana Paula Rosner e Luisa M. F. de Souza. No dia 25 de junho, Luisa pagou uma despesa de R$ 1.615 na Churrascaria Potência Grill, em Brasília. Em 23 de julho, coube a Ana Paula pagar, na mesma churrascaria, uma conta de R$ 1.995.

Segundo a assessoria de imprensa da Marinha, os gastos feitos com os cartões de crédito corporativo foram, principalmente, decorrentes de visitas oficiais, especialmente de dignitários de outras Marinhas. Mas, pela relação de datas de visitantes em 2006 e 2007, não há coincidência com os pagamentos com cartão corporativo. As visitas de autoridades militares francesas, portuguesas e inglesas ocorreram em maio de 2006, setembro e outubro de 2007.

O controlador-geral da União, Jorge Hage, entretanto, já disse que as regras de uso do cartão vetam o pagamento de despesas de terceiros em restaurantes ou bares, mesmo as de autoridades estrangeiras visitantes e integrantes de delegações. Há outro tipo de verba para tais despesas previsíveis e não-emergenciais.

A resposta da assessoria de imprensa da Marinha não explica um gasto curioso: R$ 12,50 pagos com o cartão do oficial Reginaldo J. Santos na loja O Império das Pelúcias. Também não há referência à despesa de R$ 30,40 na loja Beleza Cosméticos Ltda, ou de R$ 179,92 na loja Tinha Que Ser Com Você, de artigos de cama, mesa e banho.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: